Opinião

EVELYN MAYER - O machismo na piada pronta

Falar sobre machismo tornou-se um assunto clichê. E tudo porque, graças à dicotomia fortemente enraizada em nós através da história, de uma tradição discursiva e valorizada nos universos reais e virtuais, machismo é coisa de feminista-nazi-fascista-LGBT-comunista. Mas não é verdade. Machismo existe, sim. Negá-lo é fugir do óbvio e não procurar resolvê-lo é estupidez. O machismo se revela de várias formas no que tangem a mulher e o homossexual, por exemplo. Temos um pré-candidato à Presidência de nosso país (e que está crescendo nas pesquisas de intenção de voto) que justifica a homossexualidade "falta de cintada" e que uma deputada não merecia ser estuprada "porque é feia". Em casos ligados ao estupro, não é raro que a culpa seja da vítima, e que esta, em sua maioria, seja mulher. Se se falar de direção, então, muitos homens (e mulheres) concordarão que "mulher no trânsito, perigo constante".  Quando eu tirei minha carteira de habilitação há cinco anos atrás, não recebi nenhum tipo de apoio dos homens que me cercavam. Mas as piadinhas prontas, como "você já sabe pilotar fogão e isso basta", fizeram questão em dizer. Nenhum homem pagou pela minha habilitação, e não reclamo disso. Acho justíssimo que eu mesma tenha pago. Eu podia fazê-lo, e fiz! Todos os carros que tive neste período, eu mesma arquei com a compra e a manutenção, e não reclamo disso. É um prazer tê-lo feito! 

Estava com o carro em plena BR-369 quando, do nada, desligou. O computador de bordo não marcou que o combustível acabara. Em plena hora de almoço, e eu lá, no semáforo, com o carro parado. Um rapaz gentil de moto me viu empurrando o carro e parou para me ajudar. Em seguida, um carro da PM fez o suporte até que eu conseguisse estacionar em frente a um estabelecimento. Desci e o policial, depois de certificado que eu tinha como resolver, despediu-se gentilmente. Entrei no estabelecimento e um rapaz prontamente me atendeu, mas isso não fez com que eu deixasse de ouvir uma voz masculina vinda do andar de cima, dizendo acidamente: "E aí, fulano? Não era você quem estava dizendo que mulher não dirige nada? Não era você quem falou que mulher não sabe de nada? Fala agora!". Ao terminar minha queixa com o meu auxiliador, não pude deixar de responder à "voz do além" com uma elegância irônica: "Sim, amigo. Você está certo: mulher não sabe nada!". Entrei em uma sala, fiz duas ligações e, ao sair, não havia mais nenhum homem no recinto, a não ser os dois que me ajudaram. Não sei se encabulados com o que eu havia dito, ou porque já era hora de retornar aos postos. Sumiram! 

Pode parecer divertido tal tipo de brincadeira, mas há um machismo velado, não só para com as mulheres, mas também para com os próprios homens. Eu poderia fazer aqui uma longa lista de homens que conheço que não sabem trocar um pneu, não entendem de mecânica, nunca trocaram um gás ou não fazem ideia que fio ligar no chuveiro pra sair água quente, assim como poderia fazer uma lista de mulheres que manjam sobre tudo aquilo que é "próprio" do DNA masculino. O problema foi resolvido com sucesso. Meu cunhado e seu irmão me socorreram. Precisei de muitos homens neste dia que me foram cruciais, e agradeço de coração a todos eles, especialmente ao que, invés de tentar de me ajudar, preferiu aderir ao putrefato machismo adornado de piada. É por anedotas como esta que concluo, enquanto mãe, mulher e professora que não há mais tempo a perder com uma educação que não inclua discutir preceitos básicos, como o machismo em pleno século 21, bem como todos os outros "ismos" ligados ao preconceito, à sexualidade e ao gênero travestidos de piada. Ou vamos virar de século em século pensando que uma piadinha com uma única mulher em um lugar onde só havia homens não seja de todo mal... apenas uma "descontração" irracional. 



* A autora é professora de Língua Portuguesa e mestranda em Estudos da Linguagem em Londrina 

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